“Meu caro Senhor”, escreveu Henry Talbot em uma quarta-feira, no final de 1870,
“Fui informado pelo Sr. Cooper de que uma nova Sociedade sob seus auspícios está prestes a ser… formada para a disseminação da Arqueologia Egípcia e Assíria e da Cronologia Bíblica… Talvez seja difícil conceber um nome adequado [ênfase de Talbot] para a Sociedade, já que Sírio-Egípcia já não está mais disponível. Talvez Egito-Caldeia sirva – nada sei sobre a Sírio-Egípcia além do nome, mas suponho, pelo fato de o senhor estar promovendo uma nova sociedade, que considera a Sírio-Egípcia um fracasso.”[1]
Talbot era um aristocrata britânico e estudioso de escrita cuneiforme assíria, escrevendo ao Dr. Samuel Birch, restaurador de Antiguidades Orientais do Museu Britânico. Os dois se correspondiam a respeito de antiguidades assírias havia quase vinte anos, trabalhando para decifrar textos cuneiformes inscritos em antigas tábuas de argila. A resposta de Birch foi rápida. Seu novo projeto combinaria a Sociedade SírioEgípcia com outra organização, o Instituto Cronológico, para criar um periódico ampliado dedicado a “pesquisas relacionadas às terras bíblicas”.[2]
Fundada em 1844, a Sociedade SírioEgípcia investigava antiguidades egípcias e assírias, mas, como Birch observou: “sempre uma Sociedade fraca, ela se arrastou sob a orientação de um ou dois entusiastas e por fim colapsou de vez”.[3] Enquanto isso, o Instituto Cronológico, fundado seis anos depois, buscava evidências sólidas de narrativas antigas, colocando a astronomia em diálogo com registros de eventos celestes para determinar exatamente onde e quando esses eventos ocorreram.[4] Ainda assim, ele teve o “mesmo destino”.[5] Birch, um estudioso atento e respeitado, desejava unir esses temas em uma organização focada em apresentações regulares que pudessem então ser publicadas. Mas como começar? Talbot tinha razão. Birch precisava do nome perfeito.

Samuel Birch (1813-1885), presidente da Sociedade de Arqueologia Bíblica, de 1870 a 1885 (Sociedade de Arqueologia Bíblica, domínio público, via Wikimedia Commons).
Entusiasmo, Rigor e Instituições Acadêmicas
Ao longo das décadas de 1840, 1850 e 1860, escavadores no Iraque otomano e no Egito descobriram uma abundância de artefatos e os enviaram para a Europa. Relatos ilustrados dessas escavações explodiram no Reino Unido, com londrinos lotando o Museu Britânico para admirar as estátuas assírias e egípcias que haviam sido reveladas.[6] No mesmo período, o cuneiforme e os hieróglifos — sistemas de escrita inscritos nesses objetos — estavam sendo decifrados lentamente, mas de forma precisa por estudiosos como Birch e Talbot. Mas, embora aqueles que estavam “por dentro” do assunto considerassem esses sistemas de escrita legíveis na década de 1850, a maior parte dos papiros e tábuas de argila escavados não estavam decifrados e apodreciam lentamente em acervos de arquivos europeus.
Diante dessa promessa criada pelos arquivos, por que a Sociedade SírioEgípcia e o Instituto Cronológico fracassaram? Em sua carta a Talbot, Birch culpou o “entusiasmo” de suas lideranças.[7] Escrevendo num período em que o termo “amador” começava a perder seu brilho respeitável, Birch sentia que essas organizações careciam da expertise, do rigor analítico e da disciplina intelectual necessários para fazer jus ao passado antigo.[8] Ele sabia que uma organização dedicada a apresentar e publicar decifrações linguísticas e análises de textos antigos aumentaria exponencialmente o conhecimento especializado sobre os passados assírio e egípcio: ela difundiria tanto fontes primárias quanto a capacidade de estudiosos testarem suas próprias traduções. Mas ela precisava ter legitimidade intelectual. E, necessitando de pelo menos cem membros para recuperar o custo de impressão de qualquer um dos trabalhos propostos, Birch não estava “otimista” quanto ao seu potencial sucesso.[9]
Historiadores da ciência há muito tempo consideram a segunda metade do século XIX como um período de grande transformação institucional nas ciências. Disciplinas como antropologia, biologia e física estavam emergindo da história natural e da filosofia natural dos séculos anteriores.[10] Universidades “redbrick” estavam sendo construídas para competir com Oxford e Cambridge: instituições metropolitanas cujos novos e reluzentes laboratórios se tornaram centros de pesquisa científica.[11] Enquadrado em uma forma mais antiga de legitimidade erudita, Birch não possuía diploma universitário, mas havia publicado importantes obras sobre o Egito e moedas e, em 1870, trabalhara no Museu Britânico havia mais de trinta anos como o único especialista em egiptologia. Isso lhe assegurava credenciais de peso, já que museus eram tanto parte da infraestrutura de produção de conhecimento quanto novos espaços para “o público” se informar sobre o mundo.[12] Sociedades eruditas faziam parte desse mesmo ambiente e Birch buscava uma que atendesse exatamente às suas necessidades.
Infelizmente, imprimir trabalhos sobre artefatos, línguas e passados assírios e egípcios podia ser caro. A forma como Birch queria fazêlo exigia que uma editora tivesse acesso a tipos de letras cuneiformes e hieroglíficas que pudessem ser inseridos em suas prensas, além de custosas gravuras de antiguidades. Para sua frustração, Birch teve de se envolver no que Aileen Fyfe e Bernard Lightman chamaram de “mercado da ciência”.[13] Sua rigorosa sociedade precisava atrair entusiastas dispostos a financiar uma erudição da qual talvez não pudessem participar diretamente.

Retrato em daguerreótipo de William Henry Fox Talbot por Antoine Claudet, c. 1844 (Antoine Claudet, domínio público, via Wikimedia Commons).
Injetando Retórica Religiosa
A ajuda veio na figura de Joseph Bonomi, curador do Museu Soane, ilustrador de monumentos assírios e egípcios e membro tanto da Sociedade Sírioegípcia quanto da Associação Arqueológica da Palestina. A Associação Arqueológica da Palestina fora fundada no início da década de 1850 para “descobrir monumentos da antiguidade” in situ na Palestina e preencher parte da lacuna geográfica deixada entre Egito e Assíria pela Sociedade SírioEgípcia. Em tom exaltado, o Morning Chronicle afirmava que os monumentos prometidos por essa região poderiam até incluir a “arca sagrada, supostamente ocultada pelo profeta hebreu Jeremias em algum recanto”; tesouros que “corroboravam escritos sagrados”.[14] Da mesma forma, outro antigo membro da Sociedade Sírioegípcia atuara como secretário do Instituto Anglobíblico. Segundo o Hebrew Observer, o propósito desse instituto era promover “Crítica Bíblica” e produzir “uma tradução superior da Bíblia para a língua inglesa”.[15] Diferentemente da Sociedade Sírioegípcia, o Instituto Anglobíblico não se concentrava em textos antigos para compreender as sociedades de onde provinham. Em vez disso, buscava melhorar o cristianismo britânico moderno por meio de uma nova proximidade vernacular ao texto central da fé.
Apelos a um senso vitoriano de herança cristã compartilhada tornaramse especialmente relevantes após as teorias darwinianas de seleção natural e evolução, que postulavam um mundo antigo moldado não pela mão de Deus, mas pelo acaso.[16] Os nomes Assíria, Egito e Palestina denotavam geografias administradas por poderes imperiais otomanos, mas familiares ao público vitoriano por meio de narrativas bíblicas e clássicas. Invocando o Novo e o Antigo Testamentos, essas regiões eram vistas por orientalistas como prontas para serem tomadas — por meios intelectuais e eruditos, bem como belicosos.[17] Em 1870, a Associação Arqueológica da Palestina e o Instituto Anglobíblico estavam dispostos a se subsumir ao novo coletivo de Birch. E ele notou que seus nomes exibiam um tom teológico oportuno que “SírioEgípcia” e “Cronológico” não tinham.
Sociedade de Arqueologia Bíblica
A famosa e respeitada Cyclopaedia of Biblical Literature (1845), de John Kitto, explicava em seu prefácio que a Arqueologia Bíblica “é aquela parte da ciência teológica que tenta desvendar as diversas circunstâncias e condições que exerceram maior ou menor influência sobre a composição dos livros das Escrituras”.[18] Essa forma de erudição, que Kitto fazia questão de definir como uma ciência, tomava como objeto as paisagens e os povos que formaram a Bíblia em seus estágios mais antigos. As paisagens e os povos da Bíblia: quem eram eles senão o denominador comum que integrava cada uma das quatro sociedades científicas que Birch tentava reunir? Sua organização se chamaria Sociedade de Arqueologia Bíblica. O nome evocava implicações religiosas, um senso de história, um senso de indução e lógica científica — todas atividades respeitáveis e sérias, a serviço de algo profundamente importante para o vitoriano típico: sua herança religiosa. Quando da morte de Birch, em 1885, a Sociedade de Arqueologia Bíblica contava com 432 membros, número que se estabilizou ao redor de 600 na década de 1890. Ele pôde morrer satisfeito, sabendo que havia coordenado com sucesso um corpo erudito que publicava trabalhos frequentes e rigorosos que, em 1885, lideravam o campo da decifração linguística e não davam sinais de desaceleração.
E, no entanto…
Publicados nos primeiros Transactions da Sociedade de Arqueologia Bíblica (a coletânea de trabalhos apresentados naquele ano em reuniões regulares e publicada como livro), Birch explicava cuidadosamente que a teologia não era o objetivo. O que se queria dizer com “escritura sagrada” não era o tema de estudo — eram, sim, os povos e impérios das paisagens bíblicas.[19] De fato, Birch proibiu explicitamente trabalhos teológicos nas reuniões nos primeiros anos da Sociedade.[20] Mas, apesar dessa tentativa de secularidade, questões mais sensacionalistas sobre as relações entre a religião assíria e o cristianismo continuavam a emergir, e as pessoas enviavam constantemente artigos argumentando haver evidências de um conhecimento assírio da divindade cristã.[21] Dado que Birch decidiu nomear sua sociedade como Sociedade de Arqueologia Bíblica, em vez de algo mais restrito como “EgitoCaldeia”, talvez isso fosse inevitável.
Notas & Referências
[1] Henry Fox Talbot para Samuel Birch, 7 de dezembro de 1870. Doc. 9734, The Correspondence of William Henry Fox Talbot, última atualização em 1º de setembro de 2003, https://foxtalbot.dmu.ac.uk/, acesso em 6 fev. 2025.
[2] Samuel Birch para Henry Fox Talbot, 9 de dezembro de 1870. Doc. 9737, The Correspondence of William Henry Fox Talbot, última atualização em 1º de setembro de 2003, https://foxtalbot.dmu.ac.uk/, acesso em 6 fev. 2025.
[3] Ibid.
[4] “Address of the Chronological Institute of London”, Transactions of the Chronological Institute of London, parte 1 (Londres: T. Richards, 1852).
[5] Birch para Talbot, 9 de dezembro de 1870. Doc. 9737, The Correspondence.
[6] O livro Nineveh and its Remains, de Austen Henry Layard, tornou-se um best-seller, e ao longo das décadas de meados do século jornais como o Illustrated London News e o Daily Telegraph noticiaram as visitas às salas assírias e egípcias do Museu.
[7] Birch para Talbot, 9 de dezembro de 1870. Doc. 9737, The Correspondence.
[8] Philippa Levine, The Amateur and the Professional: Antiquarians, Historians, and Archaeologists in Victorian England, 1838–1886 (Cambridge University Press, 1986).
[9] Birch para Talbot, 9 de dezembro de 1870. Doc. 9737, The Correspondence.
[10] George W. Stocking, Victorian Anthropology (Free Press, 1987); Michel Foucault, The Order of Things: An Archaeology of Human Sciences, Vintage Books, 1994 (Pantheon Books, 1970).
[11] Levine, The Amateur and the Professional.
[12] Susan Sheets-Pyenson, Cathedrals of Science: The Development of Colonial Natural History Museums during the Late Nineteenth Century (McGill-Queen’s University Press, 1988); Eilean Hooper-Greenhill, Museums and the Shaping of Knowledge (Taylor & Francis, 1992); Sadiah Qureshi, Peoples on Parade: Exhibitions, Empire, and Anthropology in Nineteenth-Century Britain (University of Chicago Press, 2011).
[13] Aileen Fyfe e Bernard V. Lightman, orgs., Science in the Marketplace: Nineteenth-Century Sites and Experiences (University of Chicago Press, 2007).
[14] “Palestine Archaeological Association”, The Morning Chronicle, 3 de outubro de 1853, p. 5. British Newspaper Archive, acesso em 5 fev. 2025.
[15] “Report and Transactions of the Anglo-Biblical Institute—1852–1853”, Hebrew Observer, 23 de setembro de 1853, p. 9. British Newspaper Archive, acesso em 5 fev. 2025.
[16] Ver Stocking, Victorian Anthropology.
[17] Edward W. Said, Orientalism: Western Conceptions of the Orient (Random House, 1978); Mary Louise Pratt, Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation, 2008 (Routledge, 1992).
[18] John Kitto, Cyclopaedia of Biblical Literature, 1845 (London, 1890), xii.
[19] Kitto, “Preface,” xi.
[20] “Theological and Political Papers are not accepted by the Council.” “Objects,” Transactions of The Society of Biblical Archaeology, vol. 2 (Longmans, Green, Reader and Dyer, 1873), xxv.
[21] Em um dos primeiros artigos, Henry Fox Talbot afirma que “Em meio ao caos de nomes, é possível perceber um sentimento da verdadeira unidade da natureza divina.” Henry Fox Talbot, “On the Religious Belief of the Assyrians No. II,” Transactions of the Society of Biblical Archaeology, vol. 2, p. 34.
Este texto foi editado pela editor colaborador Andra Sonia Petrutiu, revisado pela editor colaborador Sameeha Vardhan e traduzido para o português por Amanda Domingues. Gravação em português de Amanda Domingues.