‘chickens take care of themselves, they live all around, withstanding by themselves’; they know how to ‘eat lizards, crickets, just to withstand and stay around here’ — João Karitiana, apud Vander Velden (2025)
Entre os Karitiana, povo do sudoeste da Amazônia brasileira, há uma forma específica de se referir a certos animais criados em grandes quantidades. Traduzido como “crescer”, kerep designa, entre outros, as galinhas, animais que não precisam ser cuidados tão diretamente por humanos, que se viram sozinhos procurando comida por conta própria. É claro que, mesmo nos quintais domésticos, alguém as alimenta, o que não as impede de encontrar minhocas e outras coisas ao redor. Mas que sobrevivem, sobrevivem. Nas regiões rurais do Brasil, galinhas são criadas soltas, alimentadas com milho ou quirera, ciscando livremente pelo quintais. Como explica Vander Velden a partir de João Karitiana, as galinhas cuidam de si mesmas, controlam seus próprios ritmos e mantêm uma existência relativamente independente e autônoma. Elas “se aguentam” e permanecem, de certo modo, apartadas da comunidade humana em que vivem.
Bom, nem todas. Os frangos de corte são diferentes. Ao serem integrados à criação industrial, mesmo moradores com vasta experiência doméstica se veem diante de algo muito diferente, pela alteração no ciclo de vida e na capacidade dos animais de reagirem ao ambiente artificial. Diferente daqueles criados soltos, frangos industriais precisam ser estimulados a comer, dormir e podem até morrer diante de pequenas mudanças nas condições habituais. Um episódio sobre o manejo da luminosidade em um aviário de corte demonstra como até comportamentos supostamente inatos tornam-se elementos de organização no agronegócio.

Chickens in broiler. Photo by author.
Para alcançar a esperada eficiência produtiva, em sete dias os animais precisam ganhar 300% da massa inicial. Na primeira fase, comem e bebem ininterruptamente. Só no oitavo dia começam a dormir por períodos mais longos, mas antes disso, recomenda-se apagar as luzes por uma hora, para se acostumarem ao descanso. No primeiro lote da família, os granjeiros esqueceram esse detalhe e, após uma noite inteira no escuro, ao reacenderem as luzes na manhã seguinte, quase 300 animais — dentre cerca de 34 mil — morreram de susto.
O episódio mostra o grau de dependência ali construído. É essa capacidade de “se aguentar” e sobreviver sem intervenção humana permanente que parece desaparecer na criação industrial. Produzidos por décadas de seleção genética em condições controladas, os frangos tornam-se extremamente sensíveis e dependentes. É como se fossem “desanimalizados”, mas em vez de tornarem-se mais independentes, vão sendo refeitas formas de vida que exigem cada vez mais trabalho dos granjeiros. O que parece à primeira vista instintivo é modificado pelas condições industriais e são os trabalhadores que devem se tornar ambiguamente instintivos: aprendem a perceber, pelo corpo, aquilo que a ave já não pode regular sozinha e esse aprendizado é estimulado pela agroindústria, até que possa adquirir a forma de uma reação quase imediata, “instintiva” nesse sentido.
Essa dependência começa muito cedo. No caso dos frangos, o aviário funciona como uma grande incubadora, em que temperatura, luminosidade, pressão e umidade precisam ser rigorosamente controladas para garantir sua sobrevivência. Em condições não industriais, pintinhos recém-eclodidos dependem da galinha-mãe para calor, alimentação, proteção e aprendizagem. Nas primeiras horas de vida, o piar comunica essas necessidades e é seguindo a galinha-mãe que aprendem comportamentos vitais como forragear, agrupar-se e encontrar lugares seguros para empoleirar-se. No aviário, parte dessas funções é compartilhada entre trabalho humano e infraestrutura técnica. Os granjeiros precisam estimular os pintinhos a comer e beber, controlar sua distribuição espacial, observar seu comportamento, desenvolvimento, além de outras funções que antes se realizavam pela proximidade corporal e pelo acompanhamento da mãe. Os granjeiros se tornam, nesse sentido, suas galinhas-mães.
A termorregulação é uma das dimensões mais evidentes dessa substituição. Como pintinhos recém-nascidos têm capacidade limitada de regular a própria temperatura, precisam agrupar-se sob a galinha-mãe ou fontes de calor artificiais nos primeiros dias, exaustores, nebulizadores e sistemas de controle de ambiência, mas nada disso funciona sem a vigilância constante dos trabalhadores. A infraestrutura não substitui sozinha a galinha-mãe, mas o corpo do granjeiro também entra no circuito de regulação. Para manter a temperatura adequada, especialmente no inverno, o forno à lenha permanece aceso 24 horas, exigindo vigilância inclusive durante a madrugada. Embora a casa esteja a poucos metros, muitos granjeiros, cansados de se levantar repetidamente, revezam-se para dormir no próprio barracão, num colchão ao lado do forno. Assim levantam, verificam a temperatura e alimentam o fogo, no mesmo espaço onde descanso e trabalho se sobrepõem.
Nesse contexto, desenvolvem técnicas e utilizam o corpo como instrumento de medida. Italiano, por exemplo, sempre entra no barracão de bermuda para sentir a temperatura próxima ao chão. Pegam os animais, colocam as mãos sob suas asas e estão sempre atentos a qualquer mudança de comportamento: se abrem demais as asas, se agrupam-se nos cantos, se piam demais ou pouco. Isso chega a tanto que alguns, temerosos de que os frangos morram, chegam a caminhar descalços sobre a cama do aviário — formada por subprodutos industriais, restos de culturas e fezes das aves — assumindo os riscos de contrair bactérias pela alta concentração de amônia e outras substâncias. Foi o que ocorreu a Neia, granjeira com histórico de bons resultados, que continuou cuidando dos frangos enquanto seus pés estavam em carne viva. Granjeiros como ela precisam substituir, com trabalho, técnica e formas próprias de percepção, intimidade e cuidado, parte desse cuidado materno. Não se trata, obviamente, de uma equivalência direta, mas o corpo do trabalhador passa a integrar a infraestrutura que mantém os animais vivos.

Neia at work. Photo by author.
Isso vale até para o que não vemos ou sentimos diretamente, como a formação da microbiota que torna o animal mais ou menos suscetível à colonização por patógenos. Durante o World’s Poultry Congress, em Toronto, em julho de 2026, o veterinário Billy Hargis trouxe observações que me permitiram acrescentar outro exemplo. Ao reconstruir a história das pesquisas sobre Salmonella em aves, retomou o conceito de “exclusão competitiva” e mencionou um experimento clássico de 1973. Ao questionar por que pintinhos recém-nascidos são tão facilmente colonizados por Salmonella chegaram à microbiota: nos filhotes, ela ainda é pouco estabelecida, enquanto em aves adultas, uma comunidade intestinal mais complexa dificulta a colonização. Os pesquisadores resolveram oferecer aos pintinhos uma preparação contendo microbiota de galinhas adultas e perceberam que eles tornavam-se muito mais resistentes, pois uma comunidade intestinal já estabelecida dificulta que um “patógeno invasor” encontre espaço e condições para proliferar. A partir daí, Hargis fez uma observação interessante: se observarmos aves chocas, quando os pintinhos saem do ninho, uma das primeiras coisas que a mãe faz é eliminar seu conteúdo cecal retido por dias. Trata-se de um material verde, escuro, de cheiro fortíssimo com o qual os filhotes imediatamente entram em contato. Hargis passou então a se questionar: seria essa uma forma natural de inocular a microbiota?
Junto ao aquecimento, esse caso mostra como a separação alcança até uma escala microscópica, mas não trata-se de uma excreção qualquer: o ceco concentra a maior diversidade microbiana do corpo de uma ave, o que significa que pintinhos produzidos em incubatórios comerciais, que eclodem sem esse primeiro contato, perdem acesso à fonte mais rica de proteção existente no corpo da mãe. É algo mais complexo que substituir a função de aquecimento da galinha por outra fonte, é preciso reconstruir tecnicamente um conjunto inteiro de relações que antes passavam pelo corpo e pelo comportamento da galinha-mãe. O calor é uma delas, mas há também ritmos, aprendizagens e até aquisição de microrganismos.
Esse experimento logo tornou-se tecnologia comercial, com décadas de uso e diversos produtos incorporados pela avicultura. Poderíamos ser tentados a enquadrar essa prática como “pós-pasteuriana”, por apostar na diversidade microbiana como proteção, mas a indústria deposita nos meios técnico-científicos a expectativa de resolver problemas que ela mesma criou, colocando essa diversidade a serviço de seu projeto de controle. Não se trata de eliminar todos os micróbios, mas de substituir os selvagens, imprevisíveis e “sujos” por domesticados, padronizados, micróbios de marca, feitos em laboratório, embalados como “seguros” e “confiáveis”. Nessa história, a ironia é grande, já que enquanto a indústria separa o filhote da galinha e das relações que constituíam seu corpo, uma ciência altamente sofisticada descobre que precisa reintroduzir artificialmente aquilo que o contato com aves adultas fornecia. Criam-se incubatórios sanitariamente “controlados”, rígidos protocolos de biossegurança e depois precisam devolver aos filhotes comunidades bacterianas que antes vinham de suas mães.
É o que acontece quando se retira um filhote da mãe: parte de suas referências de mundo acabam. Quando as espécies se encontram no confinamento, elas se tornam outra coisa: os animais perdem a capacidade de distinguir dia e noite e os granjeiros são treinados como cães farejadores, ainda que sua capacidade olfativa seja comprometida pela hiperestimulação dos odores da produção. O curioso é que, quando falamos de confinamento animal, esquecemos que frangos não se criam sozinhos, há sempre alguns humanos confinados com eles. Minha etnografia em aviários no sul do Brasil mostra que, ao mesmo tempo em que criam vínculos e novas formas de proximidade e cuidado, os trabalhadores acabam envolvidos em outros tipos de violência. Precisam ser clinicamente desapegados para matar quando necessário, mas não devem se desapegar demais, porque certos sentimentos os tornam mais rigorosos no trabalho. O caso de Wilson é paradigmático: ele se recusou a matar um pintinho que não havia crescido o suficiente e não conseguia alcançar os bebedouros e passou a oferecer-lhe água em um pequeno copo de plástico. Com o tempo, dizia ser capaz de identificá-lo entre os trinta mil. Depois, ele se desenvolveu e acompanhou a maioria até o abate. Wilson pode ter interrompido ou adiado uma morte precoce, mas continuavam ambos envolvidos na sustentação de uma produção que, em algum momento, iria abatê-los. Pessoas e animais se aproximam por estarem submetidos ao mesmo sistema de exploração e trabalho intensivo, o que gera relações íntimas inesperadas. Entre os granjeiros, eu ouvia com frequência que o frango é parecido conosco, “quase como o humano”, ora próximos, ora tão distantes, especialmente diante da agroindústria que não ligava para nenhum dos dois.
Do universo macro da produção global de alimentos – no país que é o maior exportador de frango do mundo – chegamos a diferenças microscópicas. É com os pés em carne viva que, na manhã seguinte, Neia retorna ao aviário. Ao mesmo tempo em que discute com os patrões e expressa seus descontentamentos, insistia que, se precisasse, tornaria a ficar descalça para sentir a temperatura dos frangos. Mesmo com um problema grave nos pés e proibição médica, entendia aquilo não só como uma exigência de trabalho, mas como uma missão de vida: manter os frangos vivos. E a nossa? Tem sido nos alimentar com eles, com uma mistura, a cada mordida, de genética, bem-estar, controle de doenças, biossegurança, trabalho intensivo, microrganismos indisciplinados, além do hálito fresco, dos pés machucados e dos olhos atentos dos trabalhadores. Nesse mundo, os frangos não crescem por conta própria, não fazem quase nada sozinhos: nem se controlam, muito menos cuidam de si mesmos, é preciso que muitos outros corpos trabalhem e se transformem com eles.

Baby chicks. Photo by author.
Este post foi curado pela editora colaboradora Melina Campos Ortiz e revisado pelo editor colaborador Victor Secco.
Referência
Vander Velden, Felipe. “Pets and Domesticated Animals in Lowland South America.” In The Lowland South American World, edited by Casey High and Luiz Costa, 429–446. London: Routledge, 2024.