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Cartografando a Manosfera Brasileira: Alcunhas Toponímicas em um Fórum Público

O “Canal do Búfalo” [1]  foi uma proeminente comunidade online brasileira na década de 2010, composta quase inteiramente por homens.

Nesse fórum, os membros se identificavam simbolicamente como “búfalos”, inspirando-se em uma história popularizada por figuras como o palestrante motivacional e empreendedor estadunidense Rory Vaden (2020).

Essa metáfora diz respeito à forma como búfalos e vacas respondem às tempestades. Enquanto as vacas tendem a se afastar da tempestade, prolongando seu sofrimento, os búfalos avançam em sua direção, atravessando-a mais rapidamente. No contexto dessa comunidade, a metáfora incorpora uma atitude diante da adversidade: confrontar os problemas de frente, com resistência, coragem e disposição para suportar situações difíceis em vez de evitá-las.

A herd of buffalo grazing across an open grassland landscape.

Um pequeno rebanho de búfalos em uma planície seca e aberta, com arbustos esparsos. Na imagem, aparecem cinco búfalos adultos e um filhote. Fonte: PublicDomainPictures.net (Imagem de Jean Beaufort).

Por meio de web scraping e da construção de uma base de dados com conteúdos associados a essa comunidade, investigo como esse segmento da manosfera estava organizado geoespacialmente. Com conteúdos publicados entre 2010 e 2012, os dados coletados correspondem, portanto, a um período em que a manosfera ainda era incipiente, confinada às margens da internet.

O valor desse fórum para seus usuários é evidente: embora ele não esteja mais ativo, antigos membros se organizaram para mantê-lo online, preservando diálogos fundamentais que embasaram o desenvolvimento do masculinismo brasileiro.

Deste modo, proponho uma visualização exploratória e analítica das formas pelas quais sujeitos associados à manosfera brasileira se localizavam, nomeavam e distribuíam espacialmente.

A Formação Digital do Masculinismo Brasileiro

A manosfera brasileira vem tomando forma há décadas.

Ela começou nos confins da internet, mas, com o tempo, aproximou-se progressivamente da superfície do discurso mainstream.

Hoje, constitui uma grande preocupação nacional, à medida que os feminicídios são noticiados com cada vez mais frequência e criadores de conteúdo digital de grande visibilidade endossam agendas masculinistas.

“Masculinismo” é entendido, neste texto, como uma linha ideológica dentro da manosfera — por vezes associada ao movimento pelos direitos dos homens, à red pill e a grupos correlatos — que se organiza em oposição ao feminismo, interpretando as relações de gênero do “mundo moderno” como estruturalmente prejudiciais aos homens (Castella, 2012).

Embora composta majoritariamente por homens cisgêneros heterossexuais, esse espaço online abriga uma composição diversa, cujas demandas nem sempre estão alinhadas e cujas conclusões sobre como enfrentar a vida por vezes divergem. Ainda assim, eles convergem em torno de um único tema: as mulheres.

Um dos temas mais unificadores e mobilizadores entre eles é sua relação com as mulheres, que, para muitos, produz angústia, ansiedade, raiva, frustração ou ressentimento (Kehl, 2020). Apesar das diferentes formas de confrontar o papel das mulheres na sociedade, eles se unem em torno de certas convenções, constituindo esse “tipo ideal” (Weber, 2004) publicamente conhecido hoje em dia como manosfera.

Eles acreditam que o mundo gira em torno das mulheres. Esses homens afirmam que vivemos em um mundo ginocêntrico — como se o falocentrismo e o patriarcado não existissem —, no qual as relações sociais são organizadas pela subordinação dos homens aos interesses femininos. A vida social, nessa perspectiva, orbita em torno das mulheres, percebidas como detentoras de maior poder — seja por meio de apoio institucional, codificado em leis, seja por normas morais que supostamente as favorecem. As discussões, então, concentram-se nas formas mais adequadas de lidar com esse “problema”.

Determinados a confrontar os “problemas” que os afligem, esses homens se organizam e discutem estratégias para enfrentar esse mundo difícil. Aqui, concentro-me em como um grupo masculinista constrói coletivamente formas de pertencimento por meio da interação situada, dando, assim, forma e substância à manosfera. Para esse fim, a cartografia que proponho busca, por meio de uma abordagem multimodal, revelar como esses sujeitos negociam fronteiras simbólicas e enquadram o mundo.

Dado esse interesse, considero o conceito de Erving Goffman do self como performance uma estrutura valiosa para analisar este caso. Nessa perspectiva, o self é construído para sustentar a interação e administrar a imagem pública diante de uma audiência. Ele não é uma essência que existe antes da interação social, mas algo continuamente constituído por meio de trocas simbólicas e performances monitoradas diante de outros reais ou imaginados.

Por meio das affordances das plataformas digitais, de seus rastros, interações e mecanismos de monitoramento, constrói-se um technoself (boyd, 2010; Ribeiro, 2013). Aquilo que, de outro modo, poderia permanecer apenas tácito torna-se visível quando os dados são cuidadosamente organizados. Assim, os mapas interativos representam os primeiros passos em direção a uma cartografia crítica. Ao levar a sério o campo textual da autoapresentação e torná-lo material, empreendo uma experimentação metodológica e crítica com a cartografia convencional — uma que mostra como os sujeitos se situam diferentemente e enquadram suas vidas através dos lugares, sem forçar suas narrativas a um único enquadramento territorial (Crampton; Krygier, 2005).

Como Foram Coletados os Dados?

Produzi esta base empírica como lurker (ou seja, observador passivo), e escolhi esta técnica para evitar uma alteração dos comportamentos observados e também riscos ao próprio pesquisador [2]

Coletei 20.189 posts, de 441 autores. Dessas postagens, 8.138 possuíram dados quanto à localização dos frequentadores, com 129 usuários distintos publicando-as, em 93 localizações distintas. Entre os metadados disponíveis, essa variável declarada pelos próprios usuários foi essencial para compor a experimentação cartográfica no ambiente R. Todos os scripts construídos para a pesquisa estão disponíveis em um repositório no Zenodo.

Mapeando o Corpus

Para contextualizar o que se segue, é importante notar que existem diferenças significativas entre as regiões Sul/Sudeste e Norte/Nordeste do Brasil. Essas diferenças decorrem de processos distintos de formação cultural e de imaginários formativos divergentes nesses territórios.

A partir de narrativas que posicionam o Sul/Sudeste como “centro” político-cultural do país, certos grupos localizados nessas regiões afirmam que tais territórios serviriam como fonte de uma suposta “boa cultura” nacional. Discursos separatistas recentes também têm sido mobilizados a partir dessas regiões (Senra, 2023).

O mapa a seguir apresenta a distribuição de postagens por Unidade Federativa no Brasil, com base no número de publicações feitas por usuários que se associaram a cada localidade. Esse mapeamento evidencia que o segmento mais ativo da manosfera brasileira se identifica com as regiões Sul e Sudeste do país, com forte presença em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

No entanto, afirmar que qualquer região está sobrerrepresentada em relação ao país como um todo exigiria mais dados e uma comparação desses registros com outros fatores, como distribuição populacional, densidade demográfica, acesso regional à internet e padrões de uso de fóruns e plataformas digitais. Portanto, este mapa deve ser entendido como um indicador exploratório, voltado a apresentar os footings produzidos dentro desse fórum.

Abaixo, apresenta-se uma visualização da intensidade das postagens por Unidade Federativa: quanto mais escura a região, maior o volume de publicações. No mesmo mapa, o botão Switch to users (canto inferior direito) permite visualizar os autores por estado, seguindo o mesmo esquema de cores.

Essa segunda visualização revela que o Ceará, mesmo sem concentrar tantas postagens ao longo do tempo, aparece com um número elevado de autores em relação ao total de autores no corpus.

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Posicionando e Narrando Territórios Elusivos

Para garantir precisão locacional, primeiro associei os nomes formais de municípios e estados a geometrias administrativas padronizadas. Em seguida, apliquei um procedimento conservador de correspondência textual voltado a grafias imprecisas e abreviações em entradas não identificadas na primeira etapa.

Após separar as entradas localizadas automaticamente daquelas que exigiam análise qualitativa, cheguei à dimensão crítica do trabalho cartográfico: algumas das localizações neste corpus não correspondem a topônimos administrativos regulares, mas a formas vernaculares de nomear o espaço. Chamo essas formas de “alcunhas toponímicas”. Elas incluem expressões irônicas, categorias de significado vago e formas de espacialização simbólica. Argumento que alcunhas como “Interior – São Paulo”, “cidade maravilhosa”, “Onipresente, Inconscientemente Falando” ou “Fora Da Matrix Social” devem ser preservados como categorias distintas, em vez de descartados como erros. Essas formulações podem ser lidas como vestígios de uma geografia moral e imaginária da manosfera — formas de condensar pertencimento, antagonismo, prestígio, ressentimento ou ironia em formas espaciais.

Justamente em razão do caráter elusivo e difuso desse público, se é necessária essa etapa qualitativa do trabalho. Em vez de assumir que todo termo espacial corresponde automaticamente a um lugar oficialmente reconhecido, o script estabelece diferentes níveis de confiança e separa os casos que exigem tratamento interpretativo posterior. 

Como o Mapa Funciona?

O mapa abaixo exibe as alcunhas em uma caixa no canto superior direito. Ao clicar em um nome, visualizam-se os metadados associados àquela selecionada. Atribuí latitude e longitude aproximadas a algumas alcunhas quando a localização pôde ser inferida — por exemplo, “cidade maravilhosa”, epíteto amplamente conhecido do Rio de Janeiro.

Este mapa apresenta diferentes descrições de localização em distintas escalas territoriais, classificando-as como município, Unidade Federativa, país ou “alcunha toponímica”.

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Ainda, oferece uma visualização mais precisa da autoidentificação espacial. O mapa não se preocupa em responder onde estão os usuários do fórum, mas demonstrar como eles se localizam, narram o espaço e de que maneiras esses espaços elusivos da internet tomam forma. Em uma pesquisa interessada nas interações simbólicas da manosfera, essa diferença é decisiva: a localização é também uma prática interacional por meio da qual os usuários assumem um footing, posicionando-se em relação a lugares, ideias e outros sujeitos (Goffman, 1981).

Esse artefato metodológico transforma uma massa dispersa de autodescrições em um dispositivo de leitura sociológica. Ele visualiza como a manosfera brasileira constrói autorreconhecimento e inteligibilidade do mundo. As localizações autodeclaradas parecem funcionar como operadores de identidade, articulando gerenciamento de impressões e territorialidade (Ribeiro, 2013).

Isso é especialmente relevante no caso das alcunhas toponímicas. Embora nem sempre possam ser traduzidos em latitude e longitude, elas ainda operam como formas de localização. Elas se situam em relação ao grupo e a imaginários mais amplos de origem e pertencimento. Quando um usuário afirma, por exemplo, que vem do “barro”, a expressão não simplesmente fracassa como informação geográfica. Em vez disso, oferece uma pista de um self simbolicamente relacionado ao que pode ser inferido como uma evocação da narrativa bíblica do Gênesis, na qual o primeiro homem é formado do pó da terra [3]. Ele enfatiza, assim, seu lugar de fala como um sujeito cuja autoapresentação pode ser lida como religiosamente infletida e que, portanto, deve ser situado e interpretado por meio desse enquadramento simbólico.

Ao escolherem — ou recusarem — descrever sua posição no mapa, esses sujeitos produzem uma definição pública da situação: quando alguém se localiza como “Fora da Matrix Social”, está adotando um footing específico diante da audiência, não preocupado com um topônimo oficial, mas com outro tipo de posicionamento. Ele situa seu conhecimento sobre uma suposta matrix e designa como deseja estar socialmente posicionado em relação a ela.

Esse self, digitalmente construído, uma vez tornado espacialmente visível, demonstra formas pelas quais os usuários administram, situam e performam seus esquemas representacionais, constitutivos do technoself.

Notas

[1]  Disponível em: http://forumantigo.forumeiros.com. Acesso em: 20 abr. 2026.

[2]  O caso Lola Aronovich tornou-se emblemático da perseguição misógina on-line no Brasil (Carolina Aguiar, 2023). Professora universitária, blogueira e ativista feminista, Aronovich foi alvo de campanhas difamatórias, ameaças de estupro e morte, e perseguição digital organizada. No fórum analisado, ela é zombada e publicamente ridicularizada por seus membros.

[3] Embora no Brasil seja comum que cristãos se refiram a essa cena bíblica como envolvendo barro, em outros países ela é mais frequentemente descrita em termos de pó.


Este post foi selecionado pela Editora Contribuidora Multimodal Kayah Nicholas e revisado pela Editora Colaboradora Jackie Ashkin.

Referências 

Barratt, Monica J., e Alexia Maddox. “Active Engagement with Stigmatised Communities through Digital Ethnography.” Qualitative Research, 22 maio 2016. https://doi.org/10.1177/1468794116648766.

Boyd, danah. “Social Network Sites as Networked Publics: Affordances, Dynamics, and Implications.” In A Networked Self, editado por Zizi Papacharissi, 47–66. Nova York: Routledge, 2010. https://doi.org/10.4324/9780203876527-8.

Aguiar, Adriana. “Lola Aronovich: a machosfera usa tecnologia para perpetuar a misoginia.” Projeto Colabora, 2023. https://projetocolabora.com.br/ods5/lola-aronovich-machosfera-quer-perpetuar-a-misoginia/.

Castella, Tom. “Militantes do ‘masculinismo’ dizem que é hora de defender direitos dos homens.” BBC News Brasil, 3 maio 2012. https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/05/120503_militantes_direitos_homens_mv.

Crampton, Jeremy, e John Krygier. “An Introduction to Critical Cartography.” ACME 4 (2005).

Ferguson, R.-H. “Offline ‘Stranger’ and Online Lurker: Methods for an Ethnography of Illicit Transactions on the Darknet.” Qualitative Research 17, n. 6 (2017): 683–698. https://doi.org/10.1177/1468794117722211.

Goffman, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.

Goffman, Erving. Forms of Talk. Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 1981.

Harley, J. B. “Deconstructing the Map.” In The Map Reader: Theories of Mapping Practice and Cartographic Representation, editado por Martin Dodge, Rob Kitchin e Chris Perkins. Nova Jersey: John Wiley & Sons, 2011.

Kehl, Maria Rita. Ressentimento. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2020.

Ribeiro, José Carlos. “Self, Self-Presentation, and the Use of Social Applications in Digital Environments.” In Handbook of Research on Technoself: Identity in a Technological Society, editado por Rocco Luppicini. Hershey, PA: IGI Global, 2013. http://services.igi-global.com/resolvedoi/resolve.aspx?doi=10.4018/978-1-4666-2211-1.

Senra, Ricardo. “‘Muro já’: grupos separatistas aplaudem falas de Zema sobre frente Sul-Sudeste.” BBC News Brasil, 7 agosto 2023. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx8yv1rq8vxo.

Thibau, Leonardo. Cartographing the Brazilian Manosphere: A Visualization of Toponymic Aliases in a Public Forum. Zenodo, 2026. Software/caderno computacional. https://doi.org/10.5281/zenodo.20115850.

Vaden, Rory. “Buffalo Charge the Storm.” Vídeo no YouTube, 2020. https://www.youtube.com/watch?v=azcS1SXoQeA&t=63s.

Weber, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004.

 

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