Há alguns meses, passei por quatro cirurgias para retirada de dois sisos. Longas e dolorosas, elas tiraram de mim partes sólidas e com formas esquisitas — um amigo, ao ver um dos pedaços, disse que parecia um dente de tubarão! Foi uma experiência lenta e cansativa: depois de cada cirurgia, precisei de um tempo para me recuperar antes de iniciar a próxima etapa do mesmo processo. Ao longo de cada uma, ouvi a dentista e suas assistentes comentando sobre o quanto aquele dente estava teimosamente preso no meu crânio.
Antes de todas as cirurgias, ao entrar no consultório, precisei provar à recepcionista que eu, que marquei a consulta, era quem declarava ser. Ela consultava uma ficha cujo histórico eu desconhecia. “Você já passou aqui com a gente, né?” — índice de que algo havia sido registrado sobre mim, sem que eu soubesse exatamente o quê. Em cada uma dessas ocasiões, após passar pela recepção e pela sala de espera, vi um pedaço do meu crânio estampado em azul numa tela. Ali, escondido, havia um dente que não deveria estar lá.
Ao longo dos meses, muitas pessoas — que não sei exatamente quem são — acessaram essa imagem antes de acessarem o meu corpo. Lembro quando peguei o primeiro pedaço removido: algo que doía em mim subitamente se transformou num borrão em uma tela, e logo depois em pequenas partes sólidas e manchadas. Esse dente deixou meu corpo apenas uma vez — mas me pergunto se o registro dele continua a circular.
Por meio dessa experiência, passei a compartilhar uma inquietação parecida com a que a antropóloga Mariza Peirano (2014) descreveu sentir em outro contexto, o do recadastramento eleitoral biométrico: o que eu estava fazendo no dentista? Era uma cirurgia ou, mesmo sob anestésicos e dor, etnografia? Ou as duas coisas? Havia percebido que uma extensão do meu corpo, antes de ser removida, tornou-se uma unidade discreta de informação.

Sete pedaços de dois sisos da pessoa autora, dispostos do maior (à esquerda) ao menor (à direita). Entre o quarto e o quinto fragmento, há um incisivo equino eticamente coletado. (Foto registrada pela pessoa autora.)
Meu corpo foi decomposto e abstraído de seus contextos típicos de existência e, então, reorganizado por meio de uma série de fluxos de dados: me vi diante de meu corpo descorporificado, daquilo que o sociólogo Kevin Haggerty e o economista Richard Ericson (2000) denominaram como um “duplo de dados” de pura virtualidade.
Foi desse deslocamento — de um pedaço do meu corpo que agora existe fora dele, portátil e catalogável — que comecei a construir um pequeno arquivo biométrico. Uma simulação que tornasse visível a fragmentação do sujeito em registros que nunca se alinham, e que, justamente por isso, não produzem representação estável.
Em arquivos, encontramos exatamente o tipo de coisas que a socióloga Susan Star (1999), referindo-se às infraestruturas, chamou de chatas — listas de números, formulários, registros, identificadores, imagens padronizadas. Aqui, busco tornar não-chato (ou etnograficamente vivo) o que normalmente se mistura com o pano de fundo.
A historiadora Ann Laura Stoler (2009), estudando arquivos coloniais holandeses, propõe que tais territórios não devem ser lidos apenas em busca de seus silêncios, mas também a favor do que insistem em registrar, e do modo como registram. Os arquivos coloniais eram, segundo ela, lugares de ansiedade epistêmica: cheios de hesitações, atravessados por classificações que se sobrepunham e se contradiziam. Ali, o ato de catalogar envolvia a insegurança em produzir certezas num mundo que escapava ao Estado colonial.
Tomo daí uma observação: a incompletude que vivemos diante de arquivos biométricos que circulam em data centers de megacorporações parece uma propriedade de arquivos enquanto tais. Sistemas que precisam catalogar produzem, junto com seus registros, suas próprias zonas de ansiedade e obscuridade — lacunas, redundâncias, e registros que existem para marcar a impossibilidade de outros registros. O gesto que proponho busca uma construção especulativa que reproduz a “forma-arquivo”[1] tornando visíveis, em pequena escala, propriedades que infraestruturas arquivísticas e biométricas, no seu funcionamento normal, ocultam.
Construindo um Arquivo Insustentável
O sistema, construído em JavaScript com apoio de large language models (LLMs), se apresenta como um booster pack: um lote que, aberto, revela quatro fichas. O formato explora uma tese sobre a relação com os próprios dados, dada por abertura probabilística. Não escolhemos quais rastros são processados, recombinados ou devolvidos: recebemos o que o arquivo nos dá. A repetição e a espera por um fragmento raro parecem parte do modo como infraestruturas nos retornam, fragmentados.
O arquivo contém dezenove registros passíveis de descoberta e um vigésimo, ER-000, permanentemente inacessível. A pessoa usuária pode tentar acessá-lo quantas vezes quiser, e o sistema apenas registrará a tentativa e negará o acesso. A ficha ER-000 é a afirmação de algumas convenções da “forma-arquivo” observada por Stoler (2009): alguns acessos — mesmo pertinentes ao sujeito de dados — podem permanecer restritos por design.
O ER-000 implementa essa lógica em pequena escala. É um tipo de segredo: a circulação está controlada dentro do próprio sistema. A própria existência da ficha é o gesto que indica “aqui, há um registro que você não vai ler”. Tentar acessá-la é descobrir essa restrição como uma condição estrutural. O arquivo, então, é incompleto porque a incompletude é o que ele faz. E, com isso, formas estáveis de representar o sujeito se desestabilizam.
Cada uma das outras 19 fichas exibe uma fotografia — em sua maioria, imagens 3×4 minhas, capturadas em diferentes momentos e em diferentes regimes de circulação — junto a um conjunto mínimo de metadados. Não há nomes próprios: neste arquivo, o sujeito é inteiramente definido por sua legibilidade. Cada uma dessas fotografias circulou em sistemas que desconheço. O usuário tem soberania sobre o arquivo simulado porque o sujeito referenciado — a pessoa autora — não tem soberania sobre os arquivos reais que forneceram o material.
Há, contudo, um limite a essa soberania do usuário. Periodicamente, o sistema retira de circulação algum dos registros já descobertos: a ficha permanece visível como entrada, mas seu conteúdo torna-se inacessível. A perda é registrada no log e persiste entre sessões. O usuário pode tentar abrir mais lotes, exportar relatórios, pode apagar tudo de uma vez — mas não pode impedir que registros desapareçam. O arquivo decai com o uso, e essa erosão escapa também a quem o opera. A soberania do usuário sobre o arquivo é a soberania de quem pode apagar, mas não conservar.
As fichas são classificadas como comum, rara ou épica, em referência aberta à gramática de jogos colecionáveis. Cada categoria corresponde a um regime distinto de legibilidade infraestrutural. Fichas comuns (70%) são estáveis — imagens nítidas, metadados preservados, origem institucional — e representam um sujeito administrável. Fichas raras (22%) são instáveis — contextos não institucionais, fontes incertas, baixa confiança biométrica — e representam um sujeito problemático, processado parcialmente sem ser resolvido. Fichas épicas (8%) são o ponto cego do arquivo: registros cujas formas de representar o sujeito tensionam com aquelas tidas como legíveis institucionalmente. Há uma ficha — a mais rara — que exibe a imagem de um cavalo que fotografei na região onde cresci. Gosto bastante de cavalos, e mesmo considerado anômalo, o sistema tem um protocolo que força sua incorporação.
O cavalo rompe a ontologia que o arquivo assume: ele não é sujeito no sentido em que os outros registros são. Ainda assim recebe ID, ano de captura, índice. O arquivo o classifica como anômalo, atribui-lhe um regime de raridade, e o trata como mais um fragmento entre os outros. A pesquisadora da ciência e da tecnologia Irma van der Ploeg (2012) indica que, quando um sistema biométrico não consegue lidar com variações nas características humanas que estão fora de um determinado intervalo (e, aqui, o cavalo é um índice afetivo não-humano que condensa afetos humanos), catalogar e excluir, para o arquivo, é preferível a não catalogar de forma alguma.
Um Cavalo no Arquivo?
O dente fora do corpo, o registro biométrico — ambos compartilham a propriedade de existirem como signos destacados do referente, circulando em regimes que o sujeito não controla nem necessariamente conhece. Me lembro de Observatory Mansions, romance de Edward Carey (2002), em que o protagonista coleciona em segredo objetos íntimos roubados de seus vizinhos — objetos saturados dos afetos depositados por seus antigos donos. Uma vez catalogado, o objeto passa a ser um índice num sistema do qual o sujeito está ausente.
O antropólogo Alfred Gell (1998) propõe que as pessoas distribuem aspectos de sua agência através de objetos-índice que circulam como extensões dela em sua ausência. O conceito de personitude distribuída, então, permite pensar a pessoa como uma configuração que se espalha através das coisas que continuam atuando em seu nome.
Mas Gell trata, em geral, de distribuições autorizadas — a agência se estende porque o sujeito participa do gesto. O ponto de inflexão que me interessa é outro: o que acontece quando essa distribuição se dá à revelia do sujeito? Quando os índices que carregam parcelas dele circulam sem seu conhecimento, dentro de sistemas dos quais ele não participa? Aqui, a distribuição da pessoa parece se tornar um sintoma de vulnerabilidade.
Van der Ploeg (2012) observa que quem somos, como estamos e como seremos tratados são questões cada vez mais acessíveis a outras pessoas por meio de informações derivadas de nossos corpos. As identidades atribuídas daí podem se tornar como uma sombra: difícil de combater, impossível de abalar. A cientista da computação Nina da Hora (2026) localiza o mecanismo desta atribuição no próprio pipeline de sistemas de reconhecimento facial: um rosto deve ser alinhado a uma geometria canônica — um modelo que decide quais variações contam como sinal e quais como distorção — antes de ser possível reconhecê-lo. O que não pode ser estabilizado sob esta disciplina é posicionado como excesso. Da Hora nomeia esse processo como epistemicídio computacional, expandindo o conceito de Sueli Carneiro (2005) para o campo computacional: o rosto se torna reconhecível apenas por sua redução àquilo que o sistema pode estabilizar enquanto dado.
Onde Gell (1998) poderia ver a extensão do sujeito, Haggerty e Ericson (2000), van der Ploeg (2012) e da Hora (2026) poderiam perceber sua multiplicação: a pessoa é desdobrada em “selves” adicionais que ela não controla. O “duplo de dados”, como observado por Haggerty e Ericson, circula em diferentes centros de cálculo, servindo como marcador para garantia de acessos de formas muitas vezes desconhecidas de seus referentes. Da Hora (2026) lê essa operação através de Frankenstein, de Mary Shelley: partes dissecadas, costuradas num proxy cuja legitimidade é afirmada pelo procedimento que o produziu. A criatura, em seu relato, é o próprio vetor. Eu, portanto, tornei-me a criatura — e se Gell estiver certo de que a pessoa se espalha pelas coisas que agem em seu nome, a criatura não está separada de mim, mas é contínua comigo. Onde uma termina e a outra começa não parece ser uma pergunta que arquivos biométricos estão feitos para fazer.
O cavalo retorna aqui como um caso-limite. Como o dente, é um signo destacado de seu referente; diferente do dente, seu referente nunca foi um sujeito de dados. E ainda assim carrega algo de mim que nenhuma foto 3×4 carrega: um lugar de afeto condensado num índice não-humano, uma lembrança querida. O arquivo não tem categoria para isso. Ele arquiva o cavalo como anomalia e segue adiante. Ao fazer isso, mostra o que vinha fazendo o tempo todo: reconhece a forma de um registro, não a pessoa que o registro deveria representar.
Sobre Trabalho e Incompletude
Se o processo de criação de um “duplo de dados” envolve transformar o corpo em informação pura, torná-lo mais móvel e comparável, essa transformação atravessa também o sujeito: a manutenção de tais duplos demanda um trabalho contínuo e invisível.
Star (1999) nos recorda que a operação de sistemas técnicos depende de trabalhos frequentemente não reconhecidos, requerendo um equilíbrio delicado entre invisibilidade e visibilidade. No contexto dos dados biométricos, há uma espécie de trabalho de articulação do sujeito sobre si para manter-se legível a determinadas infraestruturas.
Preenchemos fichas, posicionamos o rosto num fundo claro diante de uma câmera, concedemos autorizações e informações atualizadas, e oferecemos índices simbólicos como meio de comprovar que “sim, sou quem digo ser”. Cada uma dessas operações é trabalho — uma costura entre o sujeito e a infraestrutura que o catalogará. Esse trabalho, contudo, passa despercebido na maior parte das vezes: ele simplesmente acontece.
Ainda assim, mesmo essa cooperação não basta. A incompletude parece mais uma é propriedade da forma-arquivo que uma falha a ser compensada pelo trabalho do sujeito. O esforço de legibilidade parece alimentar um ciclo — quanto mais o sujeito coopera, mais material o arquivo tem para fragmentar e recombinar, e mais distante fica de qualquer representação estável.
De Volta ao Consultório
Volto, à guisa de conclusões, ao consultório. No final da última cirurgia, a dentista — que participou de duas das quatro — reiterou a dificuldade em extrair meu dente, algo que ouvi em todas as cirurgias. “Até comentei com uma amiga minha que também é dentista! Foi o siso mais difícil que já tirei na minha carreira.” Para entender o porquê de tamanha dificuldade, ela me fez novas perguntas, especialmente sobre a organização bioquímica do meu corpo. Respondi. Uma história sobre meu dente foi compartilhada por alguém que tinha acesso aos registros e às hipóteses. Será que foi feito um “exame físico virtual” (van der Ploeg, 2012) do meu corpo? O pedaço do dente ficou comigo. Mas as informações sobre o corpo de onde ele saiu — e os processamentos que tornam possível conhecê-lo — seguem alheias a mim.
Há uma simetria que vale destacar. O controle que o sistema em questão concede a quem o usa é o negativo do controle que não tive sobre as imagens que o constituem. Talvez essa seja a inquietação que o arquivo que apresentei busca tornar palpável: cada lote produz fichas que são, ao mesmo tempo, evidência de cooperação anterior (as fotos já existiam) e signos de uma incompletude por design. Os dezenove registros visíveis e a ficha selada operam juntos: nenhum sujeito comparece inteiro, e ainda assim continua sendo cobrado dele que apareça.
Este post foi revisado pela Editora Contribuidora Shreyasha Paudel e pela Editora Contribuidora Multimodal Christine Kim.
Notas
[1] Para Stoler (2009), a forma-arquivo inclui estilo da prosa, refrões repetitivos, retóricas de persuasão, tonalidades afetivas que moldam respostas supostamente racionais, categorias de confidencialidade e classificação, gêneros de documentação. O arquivo é tanto o que se diz quanto o modo como se diz.
Referências
Carey, Edward. 2002. Observatory Mansions: A Novel. New York: Random House.
Carneiro, Sueli. 2005. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese de Doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo.
da Hora, Nina. 2026. “Frankenstein in the Pipeline: Computational Epistemicide in Facial Recognition.” In The 2026 ACM Conference on Fairness, Accountability, and Transparency (FAccT ’26), June 25–28, 2026, Montreal, QC, Canada. New York: ACM. https://doi.org/10.1145/3805689.3812284
Gell, Alfred. 1998. Art and Agency: An Anthropological Theory. Oxford e New York: Oxford University Press.
Haggerty, Kevin, and Richard Ericson. 2000. “The Surveillant Assemblage.” British Journal of Sociology 51 (4): 605–622. https://doi.org/10.1080/00071310020015280
Peirano, Mariza. 2014. “Etnografia Não É Método.” Horizontes Antropológicos 20 (42): 377–391. https://doi.org/10.1590/s0104-71832014000200015
Star, Susan Leigh. 1999. “The Ethnography of Infrastructure.” American Behavioral Scientist 43 (3): 377–391. https://doi.org/10.1177/00027649921955326
Stoler, Ann Laura. 2009. Along the Archival Grain: Epistemic Anxieties and Colonial Common Sense. Princeton: Princeton University Press.
Van der Ploeg, Irma. 2012. “The Body as Data in the Age of Information.” In Routledge Handbook of Surveillance Studies, edited by Kirstie Ball, Kevin Haggerty, and David Lyon, 176–183. London and New York: Routledge.
Agradecimentos
Meus sinceros agradecimentos à Editora-Gerente Kim Fernandes por acolher este projeto fora do ciclo editorial regular e por sua cuidadosa orientação ao longo de todo o processo editorial. Agradeço também à pesquisadora de STS Brittany Fields, cuja generosidade transformou um encontro inesperado em uma leitura inestimável deste manuscrito.